último dia de inverno

Andei pelo chão da cidade. Passei por uma das casas em que o cheiro de maconha é nítido como um Pinho Sol.

É o fogo que faz a fumaça chegar, sopra alquimia. Forma a silhueta na outra ponta da ponta: olhos apertados no centro, mãos que apertaram, dedos que afrouxaram nós pra se elevar a ponto de entender que não há dois lados em nada.

Fui dando eu-te-amo pras mulheres (uma delas devolveu um bom dia de alerta), dando bom dia pros homens (um deles devolveu uma piscadela asquerosa, sem fogo, sem alquimia), dando amor pros cachorros (dois pretos, um prata – diria meu avô que não conheci, “dois de azeviche, um argênteo”). Os gatos ainda invisíveis, passarinhos cochilavam enfileirados no ponto de ônibus com a placa: “Godot linha 743. Não passa de dez em dez minutos.”

No trem cheio, de pé, li parágrafos que mudarão a minha vida e despertarão a vida de tudo. Terminavam com “Um vento sopra e a chama se apaga. Sabemos como nos sentimos quando a luz é derrotada pela escuridão.”* Sabemos mas não evitamos.

O vagão esvaziou. A cada estação da Paulista, um lote de trabalhadoras segue, eu fico. Sentei, fechei o livro pra pensar de novo na relação entre as duas pontas do baseado. Até o ser mais desperto precisa escapar do mundo, recarregar lucidezes, pra voltar ao mundo. Quem não sabe como escapar e voltar, escapar e voltar, que erga muros.

De volta ao chão (sair do trem e subir as escadas foi em transe, sem perigo, minha mãe reza por mim), rachaduras ornam a calçada:

Nenhuma folha me distraiu, nenhuma me chamou, deixou escapar gritinho. Foi um padrão das fendas no concreto que me distraiu ao ficar em brasa. Mostrou as ramificações através das quais um magicaótico reentrou em nós. O koan escrito e postado por ele provocara as rachaduras. A pergunta sem resposta porque o que não sei, sinto. E quando veio a resposta, era um riso. Que poder tem a presença que atravessa distâncias medidas por estradas e aeroportos. Mais veloz do que palavras e descrições.

Cada um, Carlos, cada um… são múltiplos. E são sem fim os pontos em que o outro pode nos atravessar, perder a guerra, desdominar. O outro não tem fim nem começo em nós. E o encontro é tão claro que flagra a insuficiência destas palavras.

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Print: “Rock garden”, Japanese ink drawing, sumi-e, de KateCherney

 

*In “Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono”, de Tenzin Wangyal Rinpoche. Obrigada, Laura. Devir, 2010.

 

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