a Cápsula do Tempo dentro do Vídeo

O passado trouxe, dentro de um vídeo facilmente encontrado na Internet através de um clique praticamente mental,  intuitivo, uma cápsula de ar que continha o futuro – cinco anos após o momento captado pela câmera e editado com muitos cortes.

Não entendi ainda o que foi isso. Você também não vai entender.

O futuro segurei entre dedos tremendo, a mão toda esfriando, com um pensamento no fundo “vai dar tudo certo? estou enganada quanto a tudo que realmente importa?” Vendo o tempo flutuar feito poeira trancada com o vento da cápsula, vento circular – o pausar, voltar, play, arregalar e apertar os olhos, pausar, repetido até confirmar que o visto não mudava; crescia. Vento inócuo, servindo apenas para levantar poeira, baixar poeira, levantar… Que cena curta, que cena heráldica, que momento de segundos selecionados com o capricho dos deuses mais ardilosos. Um pasmo, ponto.

Esmaguei as paredes do futuro encapsulado e estouraram no ar todos os meus medos. É e não é. O trecho revisto, depois de vivido, sem jamais suspeitar que seria visto de um ângulo assim magistralmente distinto. Um ângulo doído, doido, besta, nada, obcecado, paranoide, por quê? Por que a intuição me fez rever, cinco anos depois, ela, minha vida empolgada, linda, na frente dela cujo nome e a existência eu não suspeitava existir, muito menos desconfiava vir a existir no meio de tanta atual desconfiança e inveja. E a terceira ela que revi, eu mesma, naquele dia, não atrás da câmera, mas quase (ao lado? mais atrás?). Eu vi paranoica e revi cega de desgosto.

Três meninas, três mulheres em potencial poder. Três inteiras sem saber que já eram inteiras, com ou sem esses cinco anos nas costas – sete e doze, vinte e vinte e cinco, 38 e quarenta e três.

Três eus: a do futuro, cada vez mais amedrontada de si mesma; Camela. A do passado, embotada, guiada somente pela intuição etérea demais; Leoa. No presente, eu ainda, nelas, compreendendo o que sou eu; Criança.

Chave de leitura para léxico vago: presente, passado e futuro são e sempre serão e sempre foram intercambiáveis. Daí a aparente confusão acima, desordem onírica como quando mais nos aproximamos da verdade da sequência das coisas, da influência das experiências e do tempo integral.

E corri para nomear. Para nomear cada vez melhor. Bem nomeada, bem montada, bem contada, bem articulada, bem estranha, bem escrita, bem legal, bem equipada de caneta e papel, bem individuada.

A menina do futuro (e isso serve para as três – para as seis, na verdade, a de 7, a de 12, a de 20, a de 25, a de 38 e a de 43) era inocente, é cheia de delicadezas encantadoras. Ruminava ilusões. Minha rival no meu próprio passado cego que se atropelava sem freios. Se encontrando sem desconfiar, no seguinte movimento: receando, se empolgando, se excitando com o mundo novo, enfrentando com coragem, receando seus outros eus, desconfiando de tudo e de si mesma junto. Vivas.

A menina do passado era uma gata empolgada, tigresa colorida de pulos experimentalmente livres, uma mescla de tudo o que eu poderia chamar de felicidade. Minha filha no presente inaugurado neste ato de nomeação – onde começa o presente.

A menina do presente é ilimitada por sua natureza integral. Inocência nos flancos.

São todas a mesma mulher, não esqueçamos. Daí eu pular a do futuro propositalmente agora – já foi dita nas outras.

E correm para nomear o que o sono apaga. O sono maré que sempre volta, mas leva determinados insights pra nunca mais. Ou pra cinco anos, talvez. Ainda que ainda não dê para entender que raio de vídeo é esse. Vou contar…

Era um show. Uma quis assistir, uma estava pela primeira vez na produção de um show e uma foi só para acompanhar. Quem foi só para acompanhar, claro, era a mãe. A que aprendia o ofício de produzir era o gatilho das minhas armas. Gatilho duro, ferro, curvo, firme, me chamando a disparar medo.

São todas yin, não esqueçam. Daí pular agora a que quis assistir ao show – no vídeo, se igualam justamente onde o ato de assistir é outro lado de produzir e outro lado de acompanhar.

O princípio masculino também não precisa ser mencionado. Por outro motivo.

 

 

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