Sete Filtros de um Delírio

Ludimila Hashimoto

[conto originalmente publicado no site Cooltural]

[Casa] escurecida e manchada

                        pelo toque cálido

                        e morno do hálito,

                        maculada, querida,

                        alegra-te! Que em outra era tudo será diferente.

                        (Ah, diferença que mata,

                        ou intimida, boa parte

                        da nossa mínima, humilde

                        vida!)

– Elizabeth Bishop

 

No caderno de folhas brancas e quadradas estava escrito “Após o desespero, o mundo dá meia volta. O que estava oculto aparece no seu extremo oposto. Se esta casa for soterrada, terei encarado a raiva sem cobrir o rosto. Só quem cobre o meu rosto é a terra.”

O caderno estava no meio do que um dia foi uma sala, depois ocupada, além dos móveis, não mais pelo ar, nem por seus dois posseiros, mas por terra escura e úmida.

Foi o que me contou o bombeiro que achou.

Sei que vocês estão tristes. Hoje faz sete dias. Conheci Agda como ninguém. Aliás, vocês não a conheciam de verdade. Por isso me permiti recriar os fatos daquele dia. Para que vocês, seus familiares biológicos, aqui na minha casa, entendam quem foi Agda.

Podem chamar esta reunião de lavagem de roupa suja; a roupa sendo o corpo de Agda manchado de terra.

Trocamos mensagens durante anos, em que ela me falava dos seus dias, de seus hábitos mendicantes na rua. Fiquei com seus livros e diários quando ela virou uma espécie de nômade. Li tudo. Reflexões e referências. Vi que ela se lembrava de momentos comigo que eu apagara da memória. Acreditei nesses momentos. Sua memória era convincente de tão convicta.

No dia do enfrentamento final, ela estava sentada no sofá quebrado, falando. Para um desavisado, falava sozinha. Mas Kafka estava no outro canto da sala, deitado sobre a coberta esquecida por ele, olhos fechados, respiração lenta, e não dormia. Escutava tudo.

Agda intuía que ele não estava dormindo. Intuía muito a respeito dele, e isso era recíproco. Leio uma das mensagens que recebi dela, há quatro meses:

­“De cima do viaduto, o congestionamento parece um enfeite de Natal sem fim, luzes encadeadas, amarelas, um cordão de pessoas cansadas. Nas ruas, as crianças são pequenas demais pra caminhar muito e grandes demais pra serem levadas no colo. Pra quem não tem carro, as distâncias são enormes. E maiores ainda para que tem pressa.”

Só posso lhes contar esse dia e o que ela falava graças à presença do gato. Sem ele não tem história, porque ele era uma espécie de filtro e amplificador. Como ela, Kafka também tinha desistido da rua, e passou a viver isolado da vida comum, filtrando o ar em torno de Agda.

Sentada no sofá, ela não parava de confessar. Para ele.

“A cidade, meu amor, que me acolheu, começou a me tratar como um corpo estranho. Antes eu corria nas suas veias, depois passei a só olhar de cima do viaduto. Depois veio a época em que fiquei na calçada, cinza, empoeirada como o concreto, e percebi que eu não tinha aguentado. Quem passava desviava de mim como de um amontoado de argamassa em que o pedreiro pôs água de menos e acabou abandonando. Virei uma maçaroca, cílios cinza, cabelos de arame, boca em que pus pouca água, língua colada no céu. Fiquei.

“Antes disso era tão diferente. Eu andava. Percorria o máximo de ruas e plataformas de metrô. Não desviava muito, porque quem estava ficando pra trás do movimento da cidade vinha falar comigo, antes de virar amontoado cinzento, falava, e eu escutava o ronco do seu estômago.

“Eu gostava da rua especialmente quando o meu ônibus se aproximava do ponto e eu estava longe o suficiente pra ter que correr pra alcançar. Disparava no asfalto, brincando de atropelamento como quem brinca com a loucura, e conseguia subir ofegante, sorrindo para o motorista, que dizia algo como ‘Bora, menina’, e embora íamos, todos na mesma velocidade, na mesma respiração em uníssono.

“Eu sorria porque a cidade me empurrava e eu achava bom ser um grão de açúcar girando com a colher de café. Eu também usava cafeína e também me achava produtiva. O combustível da cidade era o café.”

Espiralado no calor de uma manta rasgada, Kafka encolheu a espinha para confirmar a posição do rabo. Não podia se distrair porque a demanda humana era grande nesse dia.

“Um dia eu andava perto do meio-fio, e dois garotos desciam a ladeira sobre uma bicicleta pequena demais até pra um só. Voavam sem controle, gargalharam um ‘Ai, caralho’, e fiquei acompanhando pra ver se iam capotar. Capotar era o meu maior medo.”

A campainha tocou. Agda não pretendia mais atender. Levantou-se do sofá antes de contar a Kafka sobre os dias em que ficava de pé na Augusta pedindo um lanche pra quem passava a pé, pedindo o whatsapp de quem passava de carro. O mundo estava ficando irreal demais para ela.

Ela foi à cozinha, propositalmente na direção oposta à porta onde tocaram a campainha, oposta à possibilidade de rua.

Fui eu quem toquei, mas fui só mais uma interrupção urbana aleatória.

Pegou o último pedaço de pão para acompanhar Kafka no último prato de ração. Com isso, acabaria a comida e ela não ia sair para comprar. Também não ia pedir. Não queria mais pedir.

Kafka foi atrás dela. Estava magro, como ela. O corpo esticado roçou as pernas de Agda, que respondeu:

“Come, por favor. É o que tem. Eu não desisti da cidade. Foi ela que me repeliu. Vamos.”

Mastigaram o pouco, e ela seguiu na única direção que restara. Para fora da casa, mas pelo outro lado. Os fundos. Onde se escondia o extremo oposto da cidade, da indústria e do lucro perpétuo.

Kafka acompanhou, mas não muito de perto. Quando Agda chegou ao parapeito da janela aberta, ele ainda estava no corredor, mas sentia que ela já estava vendo a terra reagir. O que aconteceu nesse dia foi que o mesmo solo dos empreendimentos imobiliários começou a dar meia-volta e sair para respirar pelo quintal. Era o mesmo solo, mas reagindo.

Quando Kafka pulou na cama, semicerrou os olhos ao vento da janela e filtrou o suspiro longo de Agda. O vento empurrou um véu e fez da casa uma passagem, um pequeno portal paulistano. Então ela viu.

Sobre a cama, o gato formava uma diagonal até o peito dela. Dali de onde estava, ele sentia que ela via a terra subir em diversos montes espalhados pelo quintal. Que ela via o chão estourar e as cabeças aparecerem. Os pescoços emergirem como arranha-céus estreitos, invertidos, orgânicos, cobertos de pelo ocre. Pelos no pescoço longo, cílios de toldos pretos, cornos de antenas nas cabeças, revelando girafas com manchas azuis fluorescentes que, quando Agda apertava os olhos, viravam olhos azuis manchados que subiam varando a terra fossem imãs e a lua fosse de ferro.

Dos olhos que emitiam luz azul cobalto vinham as memórias convincentes de tão convictas. Numa delas, uma Agda bem menor, criança, dançava na sala dessa mesma casa. Os giros do corpo flexível cercado por harpas de vários tamanhos, algumas batendo no teto, dedilhavam as cordas vocais de uma baleia. Eu entrava na sala afastando as cordas esbranquiçadas, translúcidas. Dei risada dos dedos e pés que nunca erravam o instrumento e perguntei:

“O que você quer inventar quando crescer: uma máquina do tempo, uma máquina do espaço, ou uma máquina de traduzir a língua dos gatos?

“Sem parar de girar: ‘De traduzir a língua dos gatos.’

Anos depois, no nosso último encontro carnal, Agda me disse que traduzir a língua dos gatos era uma bobagem sem sentido. A comunicação com um gato se dá pela presença, segundo ela. Por relações espaciais entre os corpos, geométricas. Filtragem de vibrações emitidas pelos corpos. Compartilhamento de intuições, algo assim, ela disse. Eu ri da convicção dela e brinquei: São pequenos portais egípcios. E devo ter acrescentado que um gato é uma viagem. Ou só pensei, olhando para os seus olhos, tão grandes buracos negros.

Agora, parada à janela, mas ofegante como se dançasse, estava pronta a sua invenção, sua realidade era filtrada pela presença de Kafka, costas cinza claro e peito branco. A realidade tão imediata de uma única vida, tão inédita quanto é cada mancha no pelo de uma girafa, como ela gostava de pensar e escreveu num dos diários.

Kafka, o jovem escritor tcheco, escreveu sobre isso. Eu tinha a referência nas mãos.

Acho que era só essa a história que eu queria contar hoje. Mas não terminou aqui.

Se as cabeças e pescoços já reviravam muita terra, implodindo escombros antigos, o quintal não segurou o resto do corpo de cada animal irrompendo no ar da madrugada. Fileiras de dorsos derrubaram a terra sobre a casa, numa avalanche que pretendia invadir tudo até derrubar a fachada. A fachada, acima de tudo, tinha que cair.

Os olhos grandes ficaram escuros, sem tempo, com flashes de luz azul, o gato engoliu a raiva de toda uma civilização, ouvi um alarme disparar na rua, alertando sobre a falha no tecido do real.

O resto vocês sabem. Laudos oficiais. Casa construída perto de encosta. Desabamento de estruturas em mau estado de conservação, não sei. Não foi um crime passional, apesar de tudo ter começado com uma paixão. Não foi um acidente, a não ser para quem passa pela rua de dentro da estabilidade de um carro e só vê uma cidade cenográfica, editada. Assim como Agda, eu só intuo. Graças a Kafka, eu também estava lá.

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Tribulações Políticas da Viagem no Tempo

O Quark Estranho

                                        https://publicdomainvectors.org/photos/retroscifi.png

            Tribulações Políticas da Viagem no tempo é um ensaio de ficção científica escrito por Gouthama Siddharthan, autor e poeta indiano de grande fôlego e reputação na comunidade de língua Tamil, bem como no cenário de ficção científica de vanguarda em geral, pela plasticidade mística de seu texto que emana a paixão de seu autor pelas línguas e pela linguagem em geral, enveredando por meta caminhos que simbolizam uma ruptura com a marca colonizada de uma ficção científica tradicional. Gouthama é criativo, mistura poesia e filosofia/mitologia/religião indiana com categorias da ciência/física moderna, e ao fazer isso, explora símbolos e possibilidades que rompem com a estética reacionária e tecem uma narrativa consistente e fluída, muito interessante de ser lida, já que é muito prazerosa a leitura.
O texto já foi traduzido para diversas línguas, sendo o original escrito em Tamil, depois vertido para o Inglês. Em português…

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não nos limitemos

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Não nos limitemos pelas quatro paredes-de-força impostas pelos tempos.

Vivemos tempos conturbados, mas os tempos começaram em 2016 ou 88 ou 64 ou 1500 ou antes, e nós começamos hoje.
A maior burrice é a falta de imaginação.

A falta de ver o que os tempos imemoriais falharam em ver.

Existimos em quantos corpos pudermos. Macabéa, Diadorim, Álvaro de Campos, o Velho no Mar.

No mar, primeiro eu vento.

Aí você chove.

O frio sente

Que a alegria evapora

Pra condensar em vontade

Chovemos risos,

Descondicionados de tão loucos.

E antes de evaporar, começamos a molhar de novo. Lágrima ou outros fluidos que regam o chakra secreto.

Suor ou saliva, humores são líquidos do corpo, homogêneos, inseparáveis

Quando existimos em quanta literatura couber.
Na biblioteca infinita,
Primeiro eu vento,

Depois a estrela de Clarice molha a hora e o frio

da morte no arrepio de mamilos de Diadorim

(Mamilos são homulher)

e a alegria que só Pessoa viu, com olhos nítidos de girassol.

Vontade condensada é toda a obra de Borges, que viu com olhos de Édipo a biblioteca infinita:

No aleph está Babel, está Maria Kodama e o ilimitável universo.

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“permita que as lembranças do dia surjam”

S. Luís, colega de ponto de ônibus, não espera ônibus. Faz uma hora, experimenta se relacionar com o ecossistema em torno do transporte. Faz festa gestual discreta a cada nova chegada. Fica de pé quando alguém está acanhado de sentar no pouco espaço, que cabe, mas a pessoa cansada não senta por alguma ansiedade. WhatsApp Image 2018-10-26 at 13.03.36Aí fica encamuflado, no solão do meio-dia mesmo. Espera ali o sono chegar pra ir tirar uma soneca depois. Há um esforço pra entender o que ele diz, um decifrar lúdico do fanhentusiasmado. Tem 81 anos, só perguntei quando perguntou de mim, essas contagens. O senhor entende bem o que se fala? Desculpa perguntar, mas não quero falar alto demais, desenhado demais, esses excessos. “Eteno”, diz pra dentro, pouco pra fora, o suficiente: entendo. Faz perguntas, mesmo estando completo. Retruca pro motorista, pelo vão da porta. “Vai”, diz. Motorista grita qualquer coisa. E foi. S. Luiz sente o movimento, me tranquiliza quando bufo a demora do meu 5108: “Ralm, ralm. Vah hga”. Único instante sem sorriso foi pra câmera. Só se olhou bem. E tentei olhar o que ele viu.
#humansdomeubairro #traducaodefalasreais

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Novidades: Diane di Prima e santidades

Claudio Willer

Rogério de Campos dirigiu a Conrad, responsável por uma quantidade e diversidade de edições de HQs e livros como aqueles de Hunter Thompson, Hakim Bey e Luther Blisset, assim promovendo atualizações da contracultura e anarquismo. Após a incorporação da Conrad pela Nacional, Rogério inicia novo empreendimento, a editora Veneta. Dois lançamentos chamam a atenção, de imediato: Memórias de uma beatnik de Diane di Prima e O livro dos santos do próprio Rogério de Campos.

O livro de Diane estava no topo das minhas recomendações a editoras interessadas em lançar autores da geração beat. Já levei obras dessa poeta, narradora em prosa, ativista política, coordenadora de oficinas literárias, praticante do budismo e também ocultista e professora de magia a palestras e cursos sobre a beat. Com destaque para o final de Memórias de uma beatnik: após relatar como era a vida na década de 1950, mostrando quanta coisa mudou por…

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“Esta é a primeira preliminar: ver toda a vida como um sonho.”*

Saio de casa lembrando que estou sonhando. Chove. A chuva ajuda, deixando um padrão de pingos na janela do ônibus, a estampa translúcida que mostra a paisagem toda interrompida por água, por gota, pelo que logo evapora. Desço na rua do mendigo que repousa atrás da roseira. WhatsApp Image 2018-10-26 at 13.07.35Na rua paralela, passo pelo ponto de ônibus em que pegarei o da volta. Nele, um homem sentado não espera o dele. Só olha em direções pelas quais os ônibus não vêm. Pra dentro, pra baixo, pro nada. É o segundo da minha coleção, esse homem. Coleção de pessoas que usam o ponto para não esperar. Esfrega o rosto com a ponta do casaco preto. Passo apressada.

Tantos minutos depois, retorno e ele ainda está lá, claro. Elementos oníricos agora persistem na minha tela até eu entender que são evaporáveis. Com uma mochila chamativa, toda no tema do Homem-Aranha. Na face frontal da mochila, o herói aplicado em estampa maior que a superfície, cabendo sem caber, como nos sonhos, exagerado para ser percebido por quem quer que tenha interesse na figura trágica e pacífica do louco mágico que surge quando você sabe que está sonhando.

Entre gargalhadas suaves de uma sinceridade infantil, abre a boca e me fala como se fosse realidade de pele e osso.

– Amo você. Não, não você, ela. – Aponta para uma criança que surgiu ao meu lado. – É que sou criança também. Sou um anjo. Sim, posso voar se precisar. Desculpe não parar de rir… Posso voar, por isso não estou esperando. – Ele sabe que eu sei que nem finge esperar. – Caí no metrô, fui atropelado, machucado aqui e aqui. Trabalho na escada rolante, aquela que mexe assim ou assim. Ah, você sabe que escada rolante rola, desculpa. Morri, quase, e voltei, ó, aqui onde machucou. – Sua fala não me deixa reagir, então procuro um adjetivo para ela sem parar de escutar. Uma fala ventosa. Uma brisa falada. Chapado. Esquizo. Só sincero. Necessário, na medida para este meu sonho neste momento. E segue: – Lá em cima, não entendi, não falei nada. Os anjinhos, crianças e velhos, todos assim por cima de mim. Fiquei ouvindo, os anjos disseram “Desce”, e as crianças disseram “Desce, desce!” Por isso estou aqui. E realmente ainda tinha coisa aqui. Que coisa, você não sabe?

Eu sei que coisa ele veio resolver. Veio alinhavar Melinda Gebbie e Judith Buttler. Boa sorte.

O que tem aqui, de casaco preto e mochila do Homem-Aranha, é uma inexistência. Meu ônibus chega e não há no banco meio protegido da chuva nada além de um anjo-experiência totalmente de boa com o fato de não continuar ali quando viro as costas. Quando viro as costas, ele some. Só existiu, eternamente, para me lembrar que estou sonhando.

*Tenzin Wangyal Rinpoche em O Yoga do Sono e do Sonho

último dia de inverno

Andei pelo chão da cidade. Passei por uma das casas em que o cheiro de maconha é nítido como um Pinho Sol.

É o fogo que faz a fumaça chegar, sopra alquimia. Forma a silhueta na outra ponta da ponta: olhos apertados no centro, mãos que apertaram, dedos que afrouxaram nós pra se elevar a ponto de entender que não há dois lados em nada.

Fui dando eu-te-amo pras mulheres (uma delas devolveu um bom dia de alerta), dando bom dia pros homens (um deles devolveu uma piscadela asquerosa, sem fogo, sem alquimia), dando amor pros cachorros (dois pretos, um prata – diria meu avô que não conheci, “dois de azeviche, um argênteo”). Os gatos ainda invisíveis, passarinhos cochilavam enfileirados no ponto de ônibus com a placa: “Godot linha 743. Não passa de dez em dez minutos.”

No trem cheio, de pé, li parágrafos que mudarão a minha vida e despertarão a vida de tudo. Terminavam com “Um vento sopra e a chama se apaga. Sabemos como nos sentimos quando a luz é derrotada pela escuridão.”* Sabemos mas não evitamos.

O vagão esvaziou. A cada estação da Paulista, um lote de trabalhadoras segue, eu fico. Sentei, fechei o livro pra pensar de novo na relação entre as duas pontas do baseado. Até o ser mais desperto precisa escapar do mundo, recarregar lucidezes, pra voltar ao mundo. Quem não sabe como escapar e voltar, escapar e voltar, que erga muros.

De volta ao chão (sair do trem e subir as escadas foi em transe, sem perigo, minha mãe reza por mim), rachaduras ornam a calçada:

Nenhuma folha me distraiu, nenhuma me chamou, deixou escapar gritinho. Foi um padrão das fendas no concreto que me distraiu ao ficar em brasa. Mostrou as ramificações através das quais um magicaótico reentrou em nós. O koan escrito e postado por ele provocara as rachaduras. A pergunta sem resposta porque o que não sei, sinto. E quando veio a resposta, era um riso. Que poder tem a presença que atravessa distâncias medidas por estradas e aeroportos. Mais veloz do que palavras e descrições.

Cada um, Carlos, cada um… são múltiplos. E são sem fim os pontos em que o outro pode nos atravessar, perder a guerra, desdominar. O outro não tem fim nem começo em nós. E o encontro é tão claro que flagra a insuficiência destas palavras.

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Print: “Rock garden”, Japanese ink drawing, sumi-e, de KateCherney

 

*In “Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono”, de Tenzin Wangyal Rinpoche. Obrigada, Laura. Devir, 2010.

 

sorvete de ineditismo

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sapo em Beira do Rio

itamar, voz grave: o que você quer?

elza, voz soares: pelo menos tudo,

itamar.

Em ritual de assunção forma-paixão,

itamar interrompe elza pra conversa ficar mais lúdica: isso é, é paixonite.

e canta: loonge loooooonge.

o distante prolongado, alongado na duração da lonjura.

mas longe ao sol,

mas longe ao bigo,

mas longe mesmo.

aí, essa dimensão impalpável – que faz fronteira ao norte com o sol e ao sul com a curva de um bigo vazio – transmite aqui

[eu só ia escrever aqui quando as palavras se jorrassem em câmera lenta. pois.]

inspiração pra deitar no chão e rolar morro,

não pra produzir e receber crítica boa ou ruim.

é pra botar fogo,

pra não explodir (como aqueles dois do arco-íris),

se consumir prolongado feito neblina (mas neblina inédita, saída do fundo do último parágrafo)

porque quando transmite aqui, telepassa a tradupatia.

essa doença que senta, solta fumaça, entra amor pelas palavras numa língua, sai essa ambiguidade inominável chamada literatura noutra língua, clímax da sensibilidade beijável não realizada.

hum. é e não é, então.
o quê, Itamar?
paixonite. [silêncio que não dissuade] defina “tudo”.
claro, itamar, assunção forma-paixão. defino até “pelo menos tudo”:
presença supra-física,
encontro pós-verbal,

mas a segunda melhor coisa que você pode dar

é esse gosto, esse cheiro de literatura, algo tão vago e escorregadinho que chega a ser belo, coincide com presença pós-verbal.

Abraçável porque na Estrada alongada até aqui, o transmitido

se espalha, semeia pelas asicas de abelhas

e está na Todaparte.

viu, Itamar? “pelo menos tudo” = o indizível indivisível (lembra da definição de tradução de ortega y gasset?)

inclassificável na nossa análise semântica limitada, mas de nome – já virou palavra-ônibus esse trem: amor.

Mas, auto-censurada, não posso falar amor.

porque falar amor, amor – escrever sequer –

é desrespeitar

o silêncio tântrico, atravessar

a linha de fumaça entre a chapação e a arte, linha que, quando lúcida, habito, quando não, atravesso.

além disso, nesse mundo aí torto, pré-programado por estultos, que me mede por réguas positivistas,

amar é não falar amor e falar amor é não mais amar.

palavra-feitiço não temida só por bruxas (as bruxas não a temem)

então uma bruxa nasce aqui: não temo, danço o transe

vulneravelmente quando espalho fios de fadainfatuada:

chute na porta arrombou, depois alguém vai limpar,

tirar as farpas, uma a uma, meticulosa pinça,

e não há porta mais,

ainda assim, a casa invadida está fechada: em anfitrião de ressaca não se entra, como no mar.

mas amo as ondas encrespadas, dez por dia é entretenimento profundo pra quem se entedia com linhas de régua reta.

é o que quero. o imprevisto. saber não saber. saber não dizer.

mas fala,

fala!, que o ápice é o pânico e o mais perto do coração é o coração na boca.

por um minuto inconciliável esteve vivo. fundido comigo. coisa que sente. pessoa que ressoa.

it-amar sem sujeito, it-amar o que ninguém parou pra perceber (arte oedípica de ver melhor quando está cega),

sutileza de cada ser unique. ser humano é ser unique.

ei, espalhar demais é morte ou excesso de vida?

isso todo mundo e as abelhas sabem: vid .

até it-amar, amar sem I pra não virar I-love, atividade que pode ser constante, rotineira,

põe na paixon a -nite da rinite.

a rinite é

entupimento que não digo que conheço, mas já vi.

mas é única. sua.

mas divago.

Di, vago, desperta meus sentidos,

enquanto, distante, dies. Dies away…

amor espalhado diz pro ego morrer: Die, ego!

Mas estou criança que sabe das coisas e que quer muito uma delas, totalmente inédita:

sorver-te.
Ou um dentinho já engolido, porque ínfimo no meio do bolo. E quer e não tem, e quer berrar,
“Ele é muito fofo! Eu quero beijar ele! Preciso! Agora! Aiii…”

e todos em volta são adultos demais e não entendem.

Não está na mão, mas não está no ventre dela?, dizem.

Absurdo inaceitável gritar pelo que se quer quando ninguém escuta.

É assim que me sinto quando o objeto do meu amor divaga,

põe fogo nas palavras e me faz despertar.

[eu quis pelo menos tudo e pelo menos veio. e, olha, tudo é muita coisa junta. é o paradoxo de dizer com palavras o que ninguém chega perto de ser capaz de repetir com outras. e nisso não há traição. por *isso* fiz um trava-língua: the truth seeks to destroy the truth seeker to stop her from seeking things that are untrue.]

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fim

fim mesmo

agora desconstrói até a cacofonia virar pó de abstração:

quer elza tudo, itamar. paixão, itamar, paixonite.

e looooonge o. duração, mas sol, mas bigo, mas mesmo aí,

aqui eu, pois. inspiração: morro, não.

ruim é fogo pra mordomo.  se parágrafo, arco-íris:

porque tradupatia senta, beijável sente.

primeira porque aqui, se abelhas, e parte viu, indivisível inclassificável.

amor não sequer é desrespeitar o tântrico, a arte nesse estulto amar.

falar palavra-feitiço temem, então transe. mas fada chuta.

limpar, tirar pinça e mais ainda mar é reta. é dizer ar.

boca. por sente it-amar perceber sutileza unique, espalhar vida até.

lúdica põe rinite no pain essa dor. não sua, mas vago desperta sentidos enquanto

dies amor ego.  mas inédita ínfima gritar, e entendem: absurdo escuta é.

divagaepõedespertar,elza:

itamar (1)

may love be anything suitable to our freedom “nem queu tenha quinventar otra gramática”

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