Sopa de Letra

Segundo quem está aprendendo a falar.

Um é zero.

Térreo, pra quem anda sobre a terra.

Segundo subsolo é coração.

d é b,

dependendo de quem vê.

Letra O é zero.

Y é um I meio cortado.

Um galho feito estilingue.

S é cinco.

J um L que quer molhar os pés no rio;

Enquanto o L, alongamento.

O x gira.

O N vai chegar a ser M.

Equivala é cavala.

Equivalha é dromedária.

Equivalo equivale a equino cavalo.

Equivalha é dália.

Ainda não.

Equivalha é uma aliteração canalha.

Bandalha.

Vê, mas não olha.

Pode ver.

Bambu é bumbum.

Guns é nuggets.

Espinafre é a força que deforma os bíceps tatuados do Hulk.

Siri é cricri.

Gafanhoto não louva-ao-senhor.

A Terra é perfeitamente redonda.

Como uma bilha de aço.

Como um bife de alho.

Como só o que eu faço.

Não cozinho.

Faço.

Sopa de letra.

a single person, two single people

image (5)Everybody is a single person in spite of being married or dating, and unless they have multiple personality disorder. Which includes all the multiplicity and paradox vibrating from the word “person”.

“Candy says, I’ve come to hate my body and all that it requires in this world.”

“Jenny said when she was just five years old, you know there’s nothing happening at all.”

“Stephanie says that she wants to know why it is though as she’s the door, she can’t be the room.”

“Lisa says with just one little smile, I’ll sit down next to you for a little while.”

Desiree says, I hate to date. I hate to date. I hate to date.

Dating is being treated as if it were some kind of unanimity. Listen to them girls. Each girl is a single universe.

Labirintos, Elevadores e Pontes

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Outro dia não dormi à noite.

Você sabe como é. Quando isso acontece, dá pra ver o tempo.

Planejara fazer várias coisas quando acordasse bem.

Jamais tive dificuldade alguma pra dormir. Nem durante as gravidezes. Então, pensei, tudo bem tomar um café forte às 21h.

Não. Preguei. O olho.

Vi num globo de cristal o universo dormindo, se isolando no mundo estranho regido pela linguagem absurda do Inconsciente. O mundo noturno embriagado e eu olhando, de fora, careta.

Virei de lado. Sentei. Andei feito fantasma. Levantei o corpo da cama. Tentei imitar um animal sem nome, aproveitando para evocar uma personagem chamada Nagiko em sua noite de anti-núpcias, ao lado de um personagem marido chamado Ken Hashimoto.

Comecei a riscar mentalmente, na parede do túnel da noite, um a um, os planos da manhã seguinte, me despedindo da lista de boas chances de finalmente me tornar algo concreto.

Nem durante o dia jamais me senti tão desperta. Encarnei o paradoxo do contraste. Contraste entre ser a hora de dormir e estar cada vez mais desperta, como quem vai acordando no baixar de pálpebras transparentes. E o contraste entre o meu contorno que deixei na cama e o recheio se deslocando vivo para fora do desenho, para fora do descanso.

Fui tranquilizada quando apareceu no escuro do túnel um sinal de Loading…

Entendi que o elevador que me levaria ao sono estava quebrado por carregar coisas em excesso ao mesmo tempo num fim de ciclo. E que o importante ali era dormir depois que a mente e as cordas vocais sussurrassem a pergunta.

Como se sai de um labirinto? Daí, dormir era questão de ser embalada pela pergunta. Como se sai? Às vezes demoramos horas para ouvir uma única frase. Às vezes, anos.

Depende do quanto a frase tem a dizer. Nesse dia, demorei oito horas para ouvir Como se sai de um labirinto? Como se a própria frase, em letras alongadas e lânguidas, estivesse se escrevendo vagarosa ao longo das vias e becos do próprio labirinto. Meus pés nus desenhavam o fio de Ariadne, soltando tinta de vapor d’água ao deslizarem pelo chão.

A alma ouviu. Quando o corpo despertou preenchido pelos órgãos dos sentidos que antes se deslocavam com vida própria, dei de cara com a saída.

(Pra muita gente, sucesso é se sacrificar pela imagem de uma ou mais empresas e, para isso, ter uma vida pessoal lamentável; e separar vida pessoal de vida. Pra essas pessoas, sucesso é muito dinheiro mal gasto e vida avinagrando dentro do próprio corpo.)

Fim do labirinto.

Meus quatro avós vigiavam a saída, um vão sem cor, mas retangular, na minha frente. Loaded.

Dos quatro, dois japoneses, uma baiana e um paraense, vi apenas as duas. Elas estavam dentro de uma espécie de quarto cuja porta era a saída do labirinto.

Nagiko disse:

– Vem vindo que te protejo. Não assusta com minhas garras e presas que elas são para romper as cordas.

Betânia, segurando uma chave de desenho gótico, disse:

– Que cordas, você se pergunta. Pois ela se refere ao cabo do elevador. – O quarto é um elevador, pensei, toda em estado de alerta hesitante. – Vem devagar assim mesmo. Numa vida toda em silêncio, descobri que algumas pessoas podem parar o elevador com esta chave que não parece, mas é de fenda. – E abriu um retângulo na altura do rosto, me revelando um painel de controles do elevador.

Taipan e Ken falavam um com o outro, quando percebi que estavam sobre o teto, de onde vinham suas vozes.

Procurei no painel, entre ícones extremamente auto-explicativos, o comando para a visualização do teto. Vi que Ken pintava com pincel o cabo que me lembrou um tronco de árvore quase convulsivo de tão retorcido. Com cores intensas, ele desenhava uma figura sobre uma protuberância a mais de um metro do teto e que dava a impressão de ter resultado de uma inflamação no cabo. Taipan lia instruções de um livreto, sentado de pernas cruzadas e descalço no chão teto.

Mas o que conto é só um extrato. Estimo que o Elevador tenha uns oito por seis mil metros quadrados.

[continua]

As palavras EM NEGRITO E CAIXA ALTA  no texto abaixo foram destacadas pelos meus avós.

“27/11/2014 Releases

ThyssenKrupp desenvolve o primeiro SISTEMA DE ELEVADORES SEM CABO DO MUNDO.
A tecnologia de elevadores MULTI permite o deslocamento de várias cabinas de elevador NUM MESMO POÇO NOS SENTIDOS VERTICAL E HORIZONTAL, o que dá mais liberdade à IMAGINAÇÃO DOS ARQUITETOS e traz mais capacidade e eficiência ao transporte nas cidades, reduzindo a ocupação da área útil e o consumo de energia nas construções.
Após 160 anos de sua invenção, a era dos elevadores dependentes de cabos está chegando ao fim. A ThyssenKrupp apresentou hoje, em Essen, Alemanha, na sede mundial da companhia, A NOVA TECNOLOGIA de elevadores MULTI, um marco revolucionário na indústria de elevadores e que vai transformar a maneira como as pessoas se movem nos edifícios.

Hoje, a maioria dos elevadores utiliza sistemas de eixos verticais, com apenas uma cabina por poço, o que representa uma grande limitação para a indústria da construção civil. O sistema convencional de elevadores também RESTRINGE A CAPACIDADE DE LOCOMOÇÃO das pessoas e ocupa espaço EXCESSIVO nas construções.

O primeiro passo da ThyssenKrupp para resolver essas questões aconteceu em 2002, com o lançamento do sistema de elevadores TWIN, que oferece duas cabinas por poço e aumenta a capacidade de transporte […]

O sonho longamente almejado de operar múltiplas cabinas no mesmo poço de elevador agora se tornou possível com o sistema MULTI, que permite a incorporação de até 16 cabinas de elevador por poço, rodando EM LOOP – movimento único circular. Para tanto, a ThyssenKrupp desenvolveu um sistema de motores lineares nas cabinas, transformando os elevadores convencionais em sistemas verticais semelhantes ao do metrô. A tecnologia aumenta a capacidade e a eficiência de transporte, reduzindo a ocupação de área útil e o consumo de energia nos edifícios. Também permite o deslocamento de várias cabinas nos sentidos vertical e horizontal num mesmo poço, o que possibilitará PROJETOS ARQUITETÔNICOS com alturas, formas e objetivos nunca NUNCA antes ANTES imaginados. Ou seja, o projeto não ficará mais limitado pela altura ou alinhamento do poço do elevador, abrindo novas NOVAS possibilidades aos arquitetos ÀS ARQUITETAS.”

O prazer de ver uma história bem editada

As meninas me levaram para ver A Bela e a Fera e pensei: Ver qual é a dessa Síndrome de Estocolmo estrelada por uma feminista.

O que me entreteve, no entanto, foi observar as diferenças entre a animação de 1991 e o filme de pele (que é como a Ioiô chamava live action na época em que só via desenho) que estava pronto desde de 2015.

Listei 28 diferenças [com spoilers]:

[com spoiler]

[spoilers]

argamassa

A relação entre verdade e beleza, e raiva enquanto sentimento e enquanto energia se sobrepõem à Síndrome de Estocolmo.

  1. O amigo de Gaston, Lefou,cresce na história pela comicidade apurada e por ser o complemento ético que Gaston não pode ser, além de crescer pelo talento do ator.
  2. A Fera é mais bonita e atraente do que o príncipe encantado, ao qual tive a impressão de restar apenas uma delicadeza fragilizada. E Bela faz referência a uma possível percepção disso ou a um estranhamento da aparência do príncipe, em vez de um alívio ou encanto completo com a nova aparência.
  3. Agata é uma personagem praticamente nova a partir da feiticeira que lança o encanto inicial. É tratada com desprezo por se preservar à margem dos papéis destinados à mulher na sociedade, mas aparece nos momentos cruciais com as ações mais decisivas da trama e com uma tranquilidade iluminada.
  4. Duas das personagens semiprincipais são negras.
  5. Mais do que o clássico beijo final, a entrega da biblioteca para Bela é o grande clímax.
  6. A arquitetura do castelo várias vezes faz referência ao abismo, ao precipício como presença da queda no vazio (libertador).
  7.   Existem diversas frases e momentos emblemáticos que não existem na animação. Por exemplo, o contato da Fera com o cavalo, ligando-a ao lado selvagem não destrutivo; a menção ao desejo de fuga que tanto Fera como Bela sentem diante do ambiente que habitam; o enfrentamento do medo do perigo que o anula; o diálogo sobre Romeu e Julieta e o Rei Arthur e a Távola Redonda.
  8.   Unem-se as pontas soltas do passado da Fera (perda da mãe) e do passado de Bela (morte misteriosa da mãe).
  9. A relação entre Bela e o pai é adensada, muito mais complicada do que no desenho, e resolvida.
  10. Bela chega a viver, por alguns segundos de tela, o dilema entre abandonar seu algoz à morte apesar de ter acabado de ser salva por ele. A Fera depois menciona isso, não mais reduzindo sua gratidão ao fato de ter sido cuidada por Bela durante a recuperação.
  11. A Fera vê beleza no jardim do castelo decadente, antes da transformação geral, numa visão menos asséptica da beleza já influenciada pela visão de Bela.
  12. Embora a Fera revele sua formação cultural refinada, Bela tem o papel de despertar seu real encanto pela literatura.
  13. Bela, Maurice, Fera, a Feiticeira e os criados são menos bidimensionais.
  14. As texturas (especialmente do figurino e do corpo da Fera) afetam a textura da narrativa. O vestido amarelo é um personagem (Vivi começou a ver o filme caindo de sono, mas só dormiu depois da aguardada cena da dança).
  15. A sanidade de Maurice passa por um (breve) julgamento bem menos automático do que no original da Disney, ocasião em que é mencionada a insalubridade do manicômio. O responsável pelo manicômio não é subornado por Gaston.
  16. O desejo de Gaston de se casar com Bela passa por mais graus de apelação crescente até uma extrapolação moral cada vez mais cruel.
  17. Há insinuação de possível aproximação amorosa entre Maurice e Mrs. Potts.
  18. Bela também é inventora, mais ainda do que o pai.
  19. Bela não só é fascinada por literatura como é maltratada por ensinar uma menina a ler. E justamente pelo fato de ser uma menina, não menino.
  20.   A dança do vestido amarelo é mais eficiente em ser o momento em que Bela e Fera terminam de se apaixonar um pelo outro.
  21. A letra da música Gaston é ampliada e aperfeiçoada. A coreografia e atuações dão a sensação de que a cena passa mais rápido, embora seja mais longa.
  22. O roubo da rosa é a causa do aprisionamento de Maurice, não a invasão do castelo.
  23. Existe mais contexto também no maltrato da Feiticeira por parte do Príncipe, retratando-o como fútil e mimado pela corte.
  24. Bela é mais direta e franca nos momentos de rechaçar Gaston. Ele não leva convidados e festa de casamento antes de pedir sua mão.
  25. O modo como Bela troca de lugar com o pai na prisão do castelo é mais interessante.
  26.   Não é a Fera que leva Bela da cela ao quarto por sugestão dos criados. Os criados a levam sem ele perceber.
  27. A Feiticeira que iniciou tudo está presente no meio (ajuda Maurice), na batalha e no final. E tive a impressão de que ela é a mulher que Gaston aponta como solteirona pobre e provável destino de Bela caso não se casasse com ele. [Val Ivonica já fez a gentileza de confirmar que é Agata a mulher usada para ilustrar o argumento machista de Gaston.]
  28. A Fera não parece pateta, mas a patetice potencial é transformada em charme pela voz, expressões e um mundo interno mais sofisticado.
  29. Existem outras diferenças, mais ou menos óbvias, resultado direto da intenção de acrescentar coerência, veracidade e adensamento à história.

Resenha Psico-impressionista de O Caminho do Louco

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marcação dos trechos favoritos

Terminei a leitura bem rápido para o meu padrão atual. Isso é um sinal de que O Caminho do Louco cumpre mais do que promete.

Com entretenimento elegante em linhas retas (uma por capítulo) e ótimas surpresas linguístico-espirituais urbanas nas intersecções, a narrativa foi estabelecendo comigo uma relação de respeito e delicadeza, tanto nos momentos em que a história não pedia mais que isso, quanto quando demandava também adrenalinas, desesperos, ação pura, putrefação, atmosferas de deleite – há um respeito subjacente pela leitora, inclusive no sentido de não subestimar nem de se permitir falar em monólogo. Ou uma organização mental do autor que torna o texto fluido.

Para avançar pela estrada do Louco, é preciso que a leitora nutra algum tipo de contato prévio com a própria loucura e com a insanidade do mundo, para um melhor aproveitamento das belezas e sutilezas do texto.

Não faltam personagens atraentes o suficiente para atuarem como portadoras das mais precisas conclusões sobre por que o mundo está tão equivocado e qual a essência da luz no fim do abismo. Aliás, por falar na atração exercida pelos personagens, as excelentes ilustrações de Fred Rubim complementam e ampliam com charme a linguagem visual da edição já caprichada como um todo.

São várias as personagens assim, mas vale destacar o já destacado porém discreto (exceto num momento crucial, mas sem spoiler agora) protagonista do título e narrador mais frequente. As transformações do Louco levam o tempo e a meticulosidade das transformações mais realistas que se podem transmitir no espaço de um romance. Neste, o portal mágico da autorrealização continua sendo a vida inseparável da natureza, e os truques que não muitos dominam.

Dito isso, há fantasia a um passo da realidade mais familiar, uma sobrepondo-se à outra como uma folha de vidro iluminada por baixo das duas. Sim, a realidade mais familiar aqui é translúcida o suficiente. E com um narrador talvez ingênuo – inocente, melhor – de tão sábio. Aqui a loucura está longe de ser medicável – um trajeto digno para um mal precioso por ainda ser capaz de resgatar macumbas convenientemente esquecidas pela era das soluções assépticas.

A complexidade do Caminho do Louco não desnorteia, pelo contrário. É expressa por meio do que a trilogia desenhará em seu todo mais abrangente: um mapa orgânico de um mundo capaz de sustentar diversas amostras mitológicas do processo de individuação, beirando com frequência uma espécie de diversão metafísica. Isso com uma alta carga de informações extremamente curiosas escorrendo como mercúrio para não gerar nódulos.

O Tarot está desperto e atento – eis o primeiro passo no caminho para um mundo menos escroto.
Que venha o segundo livro.

autor Alexandre Mandarino

editora Avec

As Espadas Brilhantes da Sé

2017-03-07 15.08.13

transeuntes imóveis tendem a ser alucinações

As espadas de São Jorge não atravessam na faixa
Em São Paulo e nas outras capitais governadas pelo capital.

Mas atravessam com força.

Na Estação Sé muitos homens dormem no chão úmido.

Escondem o rosto por serem os últimos sem máscara.

Um deles carregava um saco e foi parando até não ter força pra tirar da frente do rosto a ponta do saco que parou de mau jeito
Quando o resto do corpo já estava horizontal.
A ponta do saco lhe cobre os olhos
E ele faz uma estátua veneziana com a mão graciosa,

Típica graça idosa interrompida no ar entre o reflexo espontâneo e o sono.

Dorme encantado enquanto a chuva suave de fora não se ofende

Ao ser dublada pela catarata interna que jorra pra baixo,
Fonte decorativa e descalibrada que inundou demais e agora berra por tudo o que molha a atmosfera caverna da estação –

por si mesma, pela chuva, pelos guarda-chuvas morcegos fechados –

molha as solas, as faces, o cuidado onde pisar, entre tantos homens de olhos fechados.

As espadas atravessam fora das artérias, mas por cima das nossas veias de quem ainda anda
E ainda não cai no chão molhado

onde também se encontra o case aberto
Do menino magro de óculos puxando pixinguinhas no violino.

Ah, se tu soubesses como sou tão carinhoso,

Cantam mentalmente os homens sem rosto,

E só sei que cantam porque o resto do corpo é muito-muito eloquente e quero.

A mulher vende bala nos degraus
Com uma beleza imensa adormecida, cacheada, solar, sonhando desertos nos braços que também equilibram as balas de goma.

Compro uma bala pelo preço de duas

Só pra poder encarar aqueles rostos. Nada vale mais a pena.

Saio derrapando entre lâminas ao som dos bons desejos da madona da escada.

Tem muito mais coisa na Sé,
Mas essas são as que umedecem as solas,
espetam o músculo-bomba, bombeiam todo tipo de água.
Essas vêm da capacidade de não se deixar afetar por não saber como responder.

(Transeuntes imóveis tendem a ser alucinações.)

experiência espiritual urbana

2017-03-03 00.26.22.pngeu sentada, o abraço da vivi era o último recurso de uma lutadora de box pra evitar o nocaute. era um polvo colado no meu corpo. o fio de baba no meu antebraço me falou que ela apagara.

estávamos no metrô. eu louca pra chegar casa, mil coisas pra fazer, sendo a mais urgente apenas chegar em casa.

nossa estação era a terceira agora e a realidade feliz do desembarque virou a realidade de que ela não ia andar no sonambulismo de que costumava bravamente lançar mão nessas ocasiões. seu perispírito estava longe.
tampouco eu ia levar no colo o corpo de 25kg de massa sob a aceleração da gravidade do planeta onde o sono das crianças se esconde.
me lembrei de maomé cortando a manga da roupa pra não interromper o sono de um gatinho e não cortei manga. rompi condicionamentos tão enraizados na mente quanto meus braços no corpo, e deixei o trem seguir o sono dela.

De estação final a estação final interminavelmente, me despedi das mil coisas por fazer e entendi que eram desculpas pra não parar.

Permaneci parada.

Entendi também que já estava em casa, nos braços quentes que me protegiam do ar – condicionado e exagerado.
não reconheci nenhuma estação porque, sem o filtro da pressa, formavam todas uma única linha fluida entre extremos que nos deixavam ficar e logo nos liberavam pra partir sem o menor drama que fosse.

a experiência espiritual urbana da parada é brusca. fluxo que arrasta os teimosos debaixo do chão. do ciclo vicioso da pressa, escapamos pelo túnel estreito do horizonte subterrâneo.

vivi despertou os olhos imensos, íris boiando no vazio que um dia foi a cidade. uma animação inédita para andar desperta, não existindo cansaço no mundo nem nos transeuntes.

à noite, ainda e já em casa, ela pediu decidindo: amanhã vou dormir no metrô. e emendou: por que a terra gira? será que a Terra tem pressa?