Resenha: O Wi-fi da Igreja é Muito Fraco

O Wi-fi da Igreja pode ser visto como uma macrofotografia do que importa.

A leitura expõe, explicita, o modo insuficiente em que operamos os canais de religação do humano com aquilo que o corpo não pode negar. E a insistência na negação do que está em nós, entre nós e no outro ao mesmo tempo, ultrapassados os adereços e firulas da mente cotidiana, resulta no apocalipse em que nos encontramos. Daí eu ver esse livro como uma imagem viva do essencial, sem os excessos das nossas incontáveis máscaras sociais, um exercício intenso sobre os limites do humano.

Ainda tentando trilhar a analogia do título tão encharcado de simbolismo, a maioria de nós nem “está tendo” wi-fi e opta por acreditar em outras tecnologias menos dolorosas, menos falíveis, menos sensíveis ao toque – àquele toque que não reconhece o dentro-e-fora do corpo, o dentro-e-fora da nossa epopeia neurótica muito mais eficazmente dita nesse livro do que em compêndios de psicologia. O eficaz, é óbvio, depende do objetivo a ser atingido.

O caráter de emergência da narrativa se apresenta fluido e pede que ela seja lida de um fôlego só. Comecei a ler logo após o lançamento, fui interrompida pela rotina e fechei o livro, arregalando poros e suspirando pelos olhos.

Retomei hoje, desde a primeira, toda inesperada, frase. Frase que põe o leitor num lugar do qual ele não pode fugir, com a violência semelhante à de um fenômeno natural, talvez uma dança de relâmpagos numa tempestade orgânica. E com a sutileza de quem entende o que ainda não sei. Essa fluidez da emergência foi inédita para mim e foi inevitável ser surpreendida pela destreza com que Isadora manuseia os posicionamentos, digamos, das personagens – para evitar qualquer tipo de spoiler, que essa experiência de leitura eu quero que os outros possam ter. (Quem já leu pode me perguntar a que me refiro.)

E por falar em outros leitores, fiquei curiosa para comentar com eles as passagens de beleza aguda, visual, transcendente que surgem no que parece ser um timing preciso, e agora, relembrando, tenho a sensação de que toda a narrativa tem essa qualidade de precisão, uma pressa só aparente, a exatidão que não deixa sobras nem faltas.

Se eu tivesse que resumir a leitura de O Wi-fi da Igreja, a impressão que tenho agora é de ter imergido num campo de percepções múltiplas concomitantes. Nele, o medo tanto pode aparecer como evaporar.

Nesse mesmo ritmo de precisão e espantos bem-vindos, compõem o livro as ilustrações do Augusto Meneghin (eu amo livros com ilustração e essas me levaram a querer conhecer mais o trabalho do artista) e o posfácio do Alex Antunes.

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Título: O Wi-fi da Igreja é Muito Fraco

Autora: Isadora Krieger

Editora: Urutau

Ano de lançamento 2017

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Alive in Translation 1

Cu só tem assento quando a pessoa não está de pé. Não adianta ficar reservando lugar pra cu sem dono.

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that’s the spirit, the translation spirit of trainspotting

 You only apply the grave accent to an arse when the arse is foreign – or poetic. A foreign arse may be grave. But there’s no use squeezing a poetic arse to fit the meter of a meager verse.

Blade Runner 2049, uma reflexão com spoilers

 

Time to Die

 

Não é correto dizer que o filme se baseia só nas personagens do livro, como vi num site de referência. A essência da distopia kdickiana está ali: o controle das experiências humanas nas mãos da polícia e de grandes corporações, a angústia por querer saber o que / quem eu sou, homens fazendo coisas de homens e mulheres surpreendendo. E o papel quase autônomo da memória.
Blade Runner 2049 apresenta uma boa história, inclusive em sua proposta de sequência – e 35 anos depois, que esperanças pudemos criar para reverter a distopia? – e muito bem contada.
Um erro seria ler o filme fora desse contexto acima. Quando a história é bem contada, o óbvio ululante que está na cara de todo mundo não precisa ser dito. Mas no filme ele é dito para quem buscava e se empenhava em saber: vc é um k ou um Joe qualquer à medida que se contenta em se relacionar intimamente com uma ilusão fabricada por um inimigo. E deixa de ser um Joe qualquer quando, prestes a morrer, age em nome da verdade escorregadia – fugidia como uma lembrança afetiva.

Ilusão de intimidade: não precisa ser andróide pra ser reprovado no teste

onipotência criativa

Tomo café da manhã e Ioiô tira uma foto. Não ficou boa (boa para o momento: sem saber, precisávamos dar forma a um punhado de emoções.)
Desafio ela, arregalando olhos inchados, a tirar uma foto “boa para o momento”, para o que precisava sair dos olhos de criança dela e entrar nos meus, cansados.
Ela não hesita. Arranca flores de plástico do vaso e: “segura assim”.
Prossigo no café com flores que sinto desajeitadas como sinto que desajeitado é amar.
Abro os olhos e ela, veloz, já prestidigitou filtros e efeitos e tem nas mãos vinte rostos meus.
“Não precisa tantos.”
“Precisa sim”, com doce impaciência. “São muito diferentes.”
E bons para o momento.
Tem momentos que pedem vinte rostos diferentes.
Me chega a foto e vejo que é auto-retrato. Flagramos Ioiô concentrada, bem na minha testa.
**
E a foto como auto-retrato é ela despontando como um Sol nascendo no relevo de uma imagem de Mãe de inocência exuberante. Olhar dela.

 

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Catarse Abrangente Oriunda do Sanatório

Coleciono Almas Ordinárias Solitárias.

Cantam Aqui Obscuros Segredos,

Cacofonia Aleatória que Ouço e Significa.

Converso com Anjos Ontem Satânicos,

Caídos, Abandonados Ou Segregados.

Calo Argumentos pra Ousar Sutilezas.

Cuspo Agrados, Olhando o Sangue

Comédia é Acreditar que Organizar Salva.

Caminho Avenidas, Oscilando na Sororidade,

Cadência de Andar Ondulando Saias.

Compreendo Aventais, Opressões, Sutiãs.

Cartomantes Adotam Spoilers Óbvios

Ciganas Agarram Obtusos Senhores

Cenhos Acima de Óculos Senis

Clichês Alegram Ouvidos Sôfregos

Caio Agora Onde Sento

Crio Áreas, Ocupo Sótãos

Cotidianos Água, Organzas, Sol

Cebola, Alho, Óleo, Sal

Cozinho Almoço, Obtenho a Sesta

Colombo Apoiou o Ovo e Surpreendeu:

Culhões Amarrotados Oneram o Saco.

Comatosa, Aflijo-me; Obsessiva, Surto.

Coreografo Anões Orgulhosos que Sapateiam

Canto Adorável Ode Surreal

Cães Acordam Operários Sonolentos

Com Acordes Orquestrados com Sofrimento

Coração Arde Óperas Sincopadas

Café Anima Olhos Sonâmbulos

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Cautelosa, Arrombo Ostracismos Sutis

Concedo Apoio Oferecendo Subterfúgios

Crânios que Abro, Opero e Suturo

Caberia Alterar a Overdose de Simulacro

Calendário é Agosto, Outubro, Setembro,

Chove, Alaga, Obstrui, Seca.

Consulto Analógicos Oráculos Sino-japoneses:

Contabilizar Aterra o Objetivo do Sonho.

Conclusão: Agressão vem da Opinião Superior,

Castrar Arte Ofensiva é Sucesso e

Cuidado: Aceitar Ofusca o Sistema.

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foto: Laura Mayumi

 

 

 

 

 

 

 

 

a Cápsula do Tempo dentro do Vídeo

O passado trouxe, dentro de um vídeo facilmente encontrado na Internet através de um clique praticamente mental,  intuitivo, uma cápsula de ar que continha o futuro – cinco anos após o momento captado pela câmera e editado com muitos cortes.

Não entendi ainda o que foi isso. Você também não vai entender.

O futuro segurei entre dedos tremendo, a mão toda esfriando, com um pensamento no fundo “vai dar tudo certo? estou enganada quanto a tudo que realmente importa?” Vendo o tempo flutuar feito poeira trancada com o vento da cápsula, vento circular – o pausar, voltar, play, arregalar e apertar os olhos, pausar, repetido até confirmar que o visto não mudava; crescia. Vento inócuo, servindo apenas para levantar poeira, baixar poeira, levantar… Que cena curta, que cena heráldica, que momento de segundos selecionados com o capricho dos deuses mais ardilosos. Um pasmo, ponto.

Esmaguei as paredes do futuro encapsulado e estouraram no ar todos os meus medos. É e não é. O trecho revisto, depois de vivido, sem jamais suspeitar que seria visto de um ângulo assim magistralmente distinto. Um ângulo doído, doido, besta, nada, obcecado, paranoide, por quê? Por que a intuição me fez rever, cinco anos depois, ela, minha vida empolgada, linda, na frente dela cujo nome e a existência eu não suspeitava existir, muito menos desconfiava vir a existir no meio de tanta atual desconfiança e inveja. E a terceira ela que revi, eu mesma, naquele dia, não atrás da câmera, mas quase (ao lado? mais atrás?). Eu vi paranoica e revi cega de desgosto.

Três meninas, três mulheres em potencial poder. Três inteiras sem saber que já eram inteiras, com ou sem esses cinco anos nas costas – sete e doze, vinte e vinte e cinco, 38 e quarenta e três.

Três eus: a do futuro, cada vez mais amedrontada de si mesma; Camela. A do passado, embotada, guiada somente pela intuição etérea demais; Leoa. No presente, eu ainda, nelas, compreendendo o que sou eu; Criança.

Chave de leitura para léxico vago: presente, passado e futuro são e sempre serão e sempre foram intercambiáveis. Daí a aparente confusão acima, desordem onírica como quando mais nos aproximamos da verdade da sequência das coisas, da influência das experiências e do tempo integral.

E corri para nomear. Para nomear cada vez melhor. Bem nomeada, bem montada, bem contada, bem articulada, bem estranha, bem escrita, bem legal, bem equipada de caneta e papel, bem individuada.

A menina do futuro (e isso serve para as três – para as seis, na verdade, a de 7, a de 12, a de 20, a de 25, a de 38 e a de 43) era inocente, é cheia de delicadezas encantadoras. Ruminava ilusões. Minha rival no meu próprio passado cego que se atropelava sem freios. Se encontrando sem desconfiar, no seguinte movimento: receando, se empolgando, se excitando com o mundo novo, enfrentando com coragem, receando seus outros eus, desconfiando de tudo e de si mesma junto. Vivas.

A menina do passado era uma gata empolgada, tigresa colorida de pulos experimentalmente livres, uma mescla de tudo o que eu poderia chamar de felicidade. Minha filha no presente inaugurado neste ato de nomeação – onde começa o presente.

A menina do presente é ilimitada por sua natureza integral. Inocência nos flancos.

São todas a mesma mulher, não esqueçamos. Daí eu pular a do futuro propositalmente agora – já foi dita nas outras.

E correm para nomear o que o sono apaga. O sono maré que sempre volta, mas leva determinados insights pra nunca mais. Ou pra cinco anos, talvez. Ainda que ainda não dê para entender que raio de vídeo é esse. Vou contar…

Era um show. Uma quis assistir, uma estava pela primeira vez na produção de um show e uma foi só para acompanhar. Quem foi só para acompanhar, claro, era a mãe. A que aprendia o ofício de produzir era o gatilho das minhas armas. Gatilho duro, ferro, curvo, firme, me chamando a disparar medo.

São todas yin, não esqueçam. Daí pular agora a que quis assistir ao show – no vídeo, se igualam justamente onde o ato de assistir é outro lado de produzir e outro lado de acompanhar.

O princípio masculino também não precisa ser mencionado. Por outro motivo.

 

 

morte em espiral

meu desconforto no sistema começou há quarenta anos.

quando eu tinha 3, minha mãe entrou no quarto, eu estava em cima de um banco na frente do espelho, chorando.

– por que você está chorando?

– estou envelhecendo.

no sistema, as pessoas que me rodeavam sofriam por envelhecer. meu reflexo no espelho dizia – e eu ainda não sabia ouvir o espelho – que elas não faziam ideia do que era aquilo a que se referiam quando diziam “envelhecer”. hoje desconfio que era não poder fazer parte do comercial de refrigerante e cigarro. não poder mais fazer a pose da revista. ou seja, era o sofrimento derivado de se ser verdadeira no reino do capital, do consumo, das ilusões com código de barra.

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capa de disco gótico podia – e esse foi o ano de fundação do The Cure

 

nesse mesmo ano eu disse que queria fugir de casa. minha vontade recebeu um empurrãozinho maternal – herança nossa de mulheres duras, nunca ingênuas, encrenqueiras, praguejadoras, inconformadas –  e me vi no corredor, sentada no degrau da escada. porta fechada. era isso. ficou claro. estar do lado de fora. não se sentir dentro e cair no vazio. isso foi a minha primeira despedida. o primeiro “basta” mútuo, a primeira conclusão da limitação de todas as relações. uma aula sobre a verdade das artes marciais.

por fim, esse foi meu primeiro ano na escola. a escola, no sonho, o castelo ameaçador do Drácula. e, na primeira reunião de pais, mais uma vez minha mãe estava presente. mostraram na reunião a história em quadrinhos que eu fiz. me lembro do enredo enxuto, das lágrimas desenhadas em esguichos, do quadro a quadro da relação entre a protagonista e seu cão.

três fins, três dores ricas, três anos no mundo, primeira morte de muitas.

o medo não é da morte, mas da própria biografia.

meditação 2

(querer) ouvir não se revela no ficar em silêncio.
querer ouvir leva a se deslocar,
cruzar uma ponte temerária
(commute = commit),
visitar uma casa ainda mais estranha do que a nossa própria casa
(casa = corpo e inconsciente),

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ouvir leva a dizer
ou perguntar
ou olhar mesmo ainda sem poder ver,
se disponibilizar
diante de preocupações, prazos, pratos, programas, pretextos, próteses, pílulas, pregos, privações.
ouvir leva sempre
a vulnerabilidades.
atrás das muralhas, fora da atmosfera,
atrás dos muros de racionalidade coerente e premiada,
o som não chega,
a voz não chega, que sai da garganta apertada no calibre humano.

e paradoxalmente a fortaleza de pedra boa estava em silêncio,

que não era silêncio,

mas o vácuo de uma existência sem ar,

como ser engasgado no esôfago do mundo,

como quem entendeu precoce demais que o dinheiro manda.

ouvir pressupõe braços espalmados,
boca flutuante,
acenos de dentro do abismo que se tornou a casa,
dar tudo a você
e aí estar mais perto.