a Cápsula do Tempo dentro do Vídeo

O passado trouxe, dentro de um vídeo facilmente encontrado na Internet através de um clique praticamente mental,  intuitivo, uma cápsula de ar que continha o futuro – cinco anos após o momento captado pela câmera e editado com muitos cortes.

O futuro segurei entre dedos tremendo, a mão toda esfriando, com um pensamento no fundo “vai dar tudo certo? estou enganada quanto a tudo que realmente importa?” Vendo o tempo flutuar feito poeira trancada com o vento da cápsula, vento circular – o pausar, voltar, play, arregalar e apertar os olhos, pausar, repetido até confirmar que o visto não mudava; crescia. Vento inócuo, servindo apenas para levantar poeira, baixar poeira, levantar… Que cena curta, que cena heráldica, que momento de segundos selecionados com o capricho dos deuses mais ardilosos. Um pasmo, ponto.

Esmaguei as paredes do futuro encapsulado e estouraram no ar todos os meus medos. É e não é. O trecho revisto, depois de vivido, sem jamais suspeitar que seria visto de um ângulo assim magistralmente distinto. Um ângulo doído, doido, besta, nada, obcecado, paranoide, por quê? Por que a intuição me fez rever, cinco anos depois, ela, minha vida empolgada, linda, na frente dela cujo nome e a existência eu não suspeitava existir, muito menos desconfiava vir a existir no meio de tanta atual desconfiança e inveja. E a terceira ela que revi, eu mesma, naquele dia, não atrás da câmera, mas quase (ao lado? mais atrás?). Eu vi paranoica e revi cega de desgosto.

Três meninas, três mulheres em potencial poder. Três inteiras sem saber que já eram inteiras, com ou sem esses cinco anos nas costas – sete e doze, vinte e vinte e cinco, 38 e quarenta e três.

Três eus: a do futuro, cada vez mais amedrontada de si mesma; Camela. A do passado, embotada, guiada somente pela intuição etérea demais; Leoa. No presente, eu ainda, nelas, compreendendo o que sou eu; Criança.

Chave de leitura para léxico vago: presente, passado e futuro são e sempre serão e sempre foram intercambiáveis. Daí a aparente confusão acima, desordem onírica como quando mais nos aproximamos da verdade da sequência das coisas, da influência das experiências e do tempo integral.

E corri para nomear. Para nomear cada vez melhor. Bem nomeada, bem montada, bem contada, bem articulada, bem estranha, bem escrita, bem legal, bem equipada de caneta e papel, bem individuada.

A menina do futuro (e isso serve para as três – para as seis, na verdade, a de 7, a de 12, a de 20, a de 25, a de 38 e a de 43) era inocente, é cheia de delicadezas encantadoras. Ruminava ilusões. Minha rival no meu próprio passado cego que se atropelava sem freios. Se encontrando sem desconfiar, no seguinte movimento: receando, se empolgando, se excitando com o mundo novo, enfrentando com coragem, receando seus outros eus, desconfiando de tudo e de si mesma junto. Vivas.

A menina do passado era uma gata empolgada, tigresa colorida de pulos experimentalmente livres, uma mescla de tudo o que eu poderia chamar de felicidade. Minha filha no presente inaugurado neste ato de nomeação – onde começa o presente.

A menina do presente é ilimitada por sua natureza integral. Inocência nos flancos.

São todas a mesma mulher, não esqueçamos. Daí eu pular a do futuro propositalmente agora – já foi dita nas outras.

E correm para nomear o que o sono apaga. O sono maré que sempre volta, mas leva determinados insights pra nunca mais. Ou pra cinco anos, talvez. Ainda que ainda não dê para entender que raio de vídeo é esse. Vou contar…

Era um show. Uma quis assistir, uma estava pela primeira vez na produção de um show e uma foi só para acompanhar. Quem foi só para acompanhar, claro, era a mãe. A que aprendia o ofício de produzir era o gatilho das minhas armas. Gatilho duro, ferro, curvo, firme, me chamando a disparar medo.

São todas yin, não esqueçam. Daí pular agora a que quis assistir ao show – no vídeo, se igualam justamente onde o ato de assistir é outro lado de produzir e outro lado de acompanhar.

O princípio masculino também não precisa ser mencionado. Por outro motivo.

 

 

morte em espiral

meu desconforto no sistema começou há quarenta anos.

quando eu tinha 3 anos, minha mãe entrou no quarto, eu estava em cima de um banco na frente do espelho, chorando.

– por que você está chorando?

– estou envelhecendo.

no sistema, as pessoas que me rodeavam sofriam por envelhecer. meu reflexo no espelho dizia – e eu ainda não sabia ouvir o espelho – que elas não faziam ideia do que era aquilo a que se referiam quando diziam “envelhecer”. hoje desconfio que era não poder fazer parte do comercial de refrigerante e cigarro. não poder mais fazer a pose da revista. ou seja, era o sofrimento derivado de se ser verdadeira no reino do capital, do consumo, das ilusões com código de barra.

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capa de disco gótico podia – e esse foi o ano de fundação do The Cure

 

nesse mesmo ano eu disse que queria fugir de casa. minha vontade recebeu um empurrãozinho maternal – herança nossa de mulheres duras, nunca ingênuas, encrenqueiras, praguejadoras, inconformadas –  e me vi no corredor, sentada no degrau da escada. porta fechada. era isso. ficou claro. estar do lado de fora. não se sentir dentro e cair no vazio. isso foi a minha primeira despedida. o primeiro “basta” mútuo, a primeira conclusão da limitação de todas as relações. uma aula sobre a verdade das artes marciais.

por fim, esse foi meu primeiro ano na escola. a escola, no sonho, o castelo ameaçador do Drácula. e, na primeira reunião de pais, mais uma vez minha mãe estava presente. mostraram na reunião a história em quadrinhos que eu fiz. me lembro do enredo enxuto, das lágrimas desenhadas em esguichos, do quadro a quadro da relação entre a protagonista e seu cão.

três fins, três dores ricas, três anos no mundo, primeira morte de muitas.

o medo não é da morte, mas da própria biografia.

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(querer) ouvir não se revela no ficar em silêncio.
querer ouvir leva a se deslocar,
cruzar uma ponte temerária
(commute = commit),
visitar uma casa ainda mais estranha do que a nossa própria casa
(casa = corpo e inconsciente),

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ouvir leva a dizer
ou perguntar
ou olhar mesmo ainda sem poder ver,
se disponibilizar
diante de preocupações, prazos, pratos, programas, pretextos, próteses, pírulas, pregos, privações.
ouvir leva a certa
vulnerabilidade.
atrás das muralhas, fora da atmosfera,
atrás dos muros de racionalidade coerente e premiada,
o som não chega,
a voz não chega, que sai da garganta apertada no calibre humano.

e paradoxalmente a fortaleza de pedra boa estava em silêncio,

que não era silêncio,

mas o vácuo de uma existência sem ar,

como ser engasgado no esôfago do mundo,

como quem entendeu precoce demais que o dinheiro manda.

ouvir pressupõe braços espalmados,
boca flutuante,
acenos de dentro do abismo que se tornou a casa,
dar tudo a você
e aí estar mais perto.

Insuficientemente humanos

Recentemente, notei um fenômeno social que me animou e deu uma espécie de esperança. Muitas pessoas que admiro (por sua força sutil, inteligência e uma dose maior ou menor de rebeldia) se “expondo” belamente nas redes sociais.

Vejamos.

Por que chamo de fenômeno social, com tanto destaque? Não é só um desabafo que escapa de vez em quando sem maiores consequências senão para a psique da própria pessoa? Mas agora o desabafo está inserido numa reforma ética urgente. E “se expor” é uma expressão muito reveladora dos medos e repressões naturalizadas da nossa cultura. Desde quando uma moça solteira engravidar era a ruína infernal de uma vida a ser mantida o mais a sete chaves possível. E vemos essa expressão marcar sentidos cruciais nas falas ultimamente. “Você não deve se expor demais. Cuidado. Que importância tem alguém ficar sabendo que você passa por isso?” Se expor é algo negativo, ameaçador, importante? Para quem?

Não importa, a neutralidade e o aspecto impecável da máscara não deixam espaço para hesitação.

Em geral, não é bom se expor. É como um sair do armário menor e que não lhe trará nada de proveitoso. É um “se abrir” publicamente quanto ao que deveria ficar no privado. É deixar transbordar, aparentemente sem controle, um estado perfeitamente humano que pode ser interpretado como falha, ponto fraco, fracasso, defeito por quem “está de fora” – só porque esquecemos, num instinto de sobrevivência, que estamos, é claro, todos “dentro” E a cultura (preciso muito esclarecer que sentido de cultura estou usando*) dita que assumir estar dentro do perfeitamente imperfeito é assumir derrota na batalha de sobreviver neste mundo hostil.

As redes sociais ainda são um refúgio razoavelmente livre dessa dissidência que é não reproduzir o discurso e a mentalidade de certa forma onipresentes na mídia corporativa. Daí que a postagem pública de uma voz pessoal com a entrelinha: “estou me expondo, estou sendo em público algo que choca de forma inesperada e não classificável o protocolo social digital” tem um valor especial, um gosto de lucidez rebelde.

A vulnerabilidade do indivíduo é filtrada pela cultura como algo que pode acabar com a sua vida social. Quando a vulnerabilidade de um é o acolhimento imenso do outro. Porque: quem não é vulnerável?

É como a catarse do Poema em Linha Reta, de Fernando Pessoa, que vira do avesso a noção de dignidade social.

Guiar-se por uma noção superficial de dignidade social está, a meu ver, na base, no ponto de inserção de tantos assassinatos e punições aleatórias das guerras urbanas que inventamos para justificar o poder de quem manda sem jamais pensar de fato.

O ponto nevrálgico do que quero dizer é o limite entre o público e o privado, que se impõe como questão, inclusive via escândalos e absurdos políticos internacionais. É reflexão para outro texto, mas intuo que corrobora com a tese de que o que temos chamado de “se expor’ é se despir apenas de uma blindagem mantenedora de uma mentira coletiva. Ou um grande caos em que o privado tenta redefinir o público.

O público que vejo está forjando um privado tão fraco, e vice-versa, que o indivíduo precisa recuperar pessoalmente a verdade da sua voz. Sob riscos, com inconveniência, dando oi para o mal-estar. Seria uma reforma do público através do privado.

Recentemente, tenho recebido com alívio e (palavra que detesto, mas…) esperança postagens em que se vê uma voz individual à mercê do perigo de se expor. Usando mais uma vez Pessoa (assim como uso o que calhar, Osho, talvez Kafka, aquela mulher do TED Talks, Brené Brown e, para aliterar, Bertold Brecht), tenho entrado no espaço virtual e visto que há quem, como eu, leva porrada da vida, não é campeã em tudo, e é muitas vezes reles, muitas vezes vil. E, como eu, ridícula.

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Não há nessas postagens pedidos de conselho, conforme poderia crer a cultura. Elas não precisam ser frequentes, insistentes, longas. Não precisam enunciar a minha opinião sobre o tema. Ou precisam; não importa. Elas se destacam na massa pegajosa dos nossos momentos mais afoitos e inconscientes. São quase silenciosas, paradoxalmente berrantes e quietas. O grito é inerente à verdade quando ela se revela. Mesmo quando quem diz a verdade não grita, a verdade é, em si, um grito. Um sim.

Que seja preciso gritar a verdade é o sinal da doença da nossa cultura.

Obrigada a todas as pessoas que já se expuseram nas redes sociais de alguma forma. Que usaram esse espaço ainda de certa forma livre para vocalizar o inesperado, o que nós, que te lemos, não teríamos coragem de escrever.

Resta a quem lê a posição quase confortável de decidir julgar ou não julgar. E daí segue todo o resto do que realmente importa: se relacionar.

 

*O sentido de cultura aqui é o de um sistema de crenças vigentes, seguidas, obedecidas sem a ocorrência de pensamento, apenas como crença mesmo, gerando comportamentos padronizados, repetidos pela segurança da repetição, mantidos pelo medo do desconhecido, sob o aval e o incentivo perverso de quem detém algum poder sócio-político-econômico.

Who’s dealing?

Os significados do verbo DEAL geram uma ilustração deveras expressiva das relações entre pessoas.

Quando você decide LIDAR com algo ou alguém, você precisa DAR AS CARTAS para essa pessoa, caso contrário, ela não poderá entrar no jogo e você estará achando que decidiu lidar quando, na verdade, está sentada sozinha com cartas na mão, dizendo:

– Sua vez.

E jogando sozinha.

– Sua vez.

E nunca é, de fato, a vez do outro.

DEAL, so you can DEAL with it. Let the game be for real.

In many games, this involves taking all cards, shuffling them, and redistributing them de vez em quando, para não transformar a relação com a pessoa num teatro de cartas marcadas e jogral de falas repetidas ad eternum. 

Fazemos gestos fúteis, jogamos sozinhos, atuamos para manter a sensação de segurança.

Vou segurando todas as cartas na mão. A mão vai crescendo, não consigo manusear as minhas cartas. E todas as cartas do jogo são as minhas.

Caso decida lidar – distribuir – não é preciso mostrar suas cartas, mas ter confiança no andamento do jogo. Jogar não é perigoso.

 

 

 

Sopa de Letra

Segundo quem está aprendendo a falar.

Um é zero.

Térreo, pra quem anda sobre a terra.

Segundo subsolo é coração.

d é b,

dependendo de quem vê.

Letra O é zero.

Y é um I meio cortado.

Um galho feito estilingue.

S é cinco.

J um L que quer molhar os pés no rio;

Enquanto o L, alongamento.

O x gira.

O N vai chegar a ser M.

Equivala é cavala.

Equivalha é dromedária.

Equivalo equivale a equino cavalo.

Equivalha é dália.

Ainda não.

Equivalha é uma aliteração canalha.

Bandalha.

Vê, mas não olha.

Pode ver.

Bambu é bumbum.

Guns é nuggets.

Espinafre é a força que deforma os bíceps tatuados do Hulk.

Siri é cricri.

Gafanhoto não louva-ao-senhor.

A Terra é perfeitamente redonda.

Como uma bilha de aço.

Como um bife de alho.

Como só o que eu faço.

Não cozinho.

Faço.

Sopa de letra.

a single person, two single people

image (5)Everybody is a single person in spite of being married or dating, and unless they have multiple personality disorder. Which includes all the multiplicity and paradox vibrating from the word “person”.

“Candy says, I’ve come to hate my body and all that it requires in this world.”

“Jenny said when she was just five years old, you know there’s nothing happening at all.”

“Stephanie says that she wants to know why it is though as she’s the door, she can’t be the room.”

“Lisa says with just one little smile, I’ll sit down next to you for a little while.”

Desiree says, I hate to date. I hate to date. I hate to date.

Dating is being treated as if it were some kind of unanimity. Listen to them girls. Each girl is a single universe.

Labirintos, Elevadores e Pontes

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Outro dia não dormi à noite.

Você sabe como é. Quando isso acontece, dá pra ver o tempo.

Planejara fazer várias coisas quando acordasse bem.

Jamais tive dificuldade alguma pra dormir. Nem durante as gravidezes. Então, pensei, tudo bem tomar um café forte às 21h.

Não. Preguei. O olho.

Vi num globo de cristal o universo dormindo, se isolando no mundo estranho regido pela linguagem absurda do Inconsciente. O mundo noturno embriagado e eu olhando, de fora, careta.

Virei de lado. Sentei. Andei feito fantasma. Levantei o corpo da cama. Tentei imitar um animal sem nome, aproveitando para evocar uma personagem chamada Nagiko em sua noite de anti-núpcias, ao lado de um personagem marido chamado Ken Hashimoto.

Comecei a riscar mentalmente, na parede do túnel da noite, um a um, os planos da manhã seguinte, me despedindo da lista de boas chances de finalmente me tornar algo concreto.

Nem durante o dia jamais me senti tão desperta. Encarnei o paradoxo do contraste. Contraste entre ser a hora de dormir e estar cada vez mais desperta, como quem vai acordando no baixar de pálpebras transparentes. E o contraste entre o meu contorno que deixei na cama e o recheio se deslocando vivo para fora do desenho, para fora do descanso.

Fui tranquilizada quando apareceu no escuro do túnel um sinal de Loading…

Entendi que o elevador que me levaria ao sono estava quebrado por carregar coisas em excesso ao mesmo tempo num fim de ciclo. E que o importante ali era dormir depois que a mente e as cordas vocais sussurrassem a pergunta.

Como se sai de um labirinto? Daí, dormir era questão de ser embalada pela pergunta. Como se sai? Às vezes demoramos horas para ouvir uma única frase. Às vezes, anos.

Depende do quanto a frase tem a dizer. Nesse dia, demorei oito horas para ouvir Como se sai de um labirinto? Como se a própria frase, em letras alongadas e lânguidas, estivesse se escrevendo vagarosa ao longo das vias e becos do próprio labirinto. Meus pés nus desenhavam o fio de Ariadne, soltando tinta de vapor d’água ao deslizarem pelo chão.

A alma ouviu. Quando o corpo despertou preenchido pelos órgãos dos sentidos que antes se deslocavam com vida própria, dei de cara com a saída.

(Pra muita gente, sucesso é se sacrificar pela imagem de uma ou mais empresas e, para isso, ter uma vida pessoal lamentável; e separar vida pessoal de vida. Pra essas pessoas, sucesso é muito dinheiro mal gasto e vida avinagrando dentro do próprio corpo.)

Fim do labirinto.

Meus quatro avós vigiavam a saída, um vão sem cor, mas retangular, na minha frente. Loaded.

Dos quatro, dois japoneses, uma baiana e um paraense, vi apenas as duas. Elas estavam dentro de uma espécie de quarto cuja porta era a saída do labirinto.

Nagiko disse:

– Vem vindo que te protejo. Não assusta com minhas garras e presas que elas são para romper as cordas.

Betânia, segurando uma chave de desenho gótico, disse:

– Que cordas, você se pergunta. Pois ela se refere ao cabo do elevador. – O quarto é um elevador, pensei, toda em estado de alerta hesitante. – Vem devagar assim mesmo. Numa vida toda em silêncio, descobri que algumas pessoas podem parar o elevador com esta chave que não parece, mas é de fenda. – E abriu um retângulo na altura do rosto, me revelando um painel de controles do elevador.

Taipan e Ken falavam um com o outro, quando percebi que estavam sobre o teto, de onde vinham suas vozes.

Procurei no painel, entre ícones extremamente auto-explicativos, o comando para a visualização do teto. Vi que Ken pintava com pincel o cabo que me lembrou um tronco de árvore quase convulsivo de tão retorcido. Com cores intensas, ele desenhava uma figura sobre uma protuberância a mais de um metro do teto e que dava a impressão de ter resultado de uma inflamação no cabo. Taipan lia instruções de um livreto, sentado de pernas cruzadas e descalço no chão teto.

Mas o que conto é só um extrato. Estimo que o Elevador tenha uns oito por seis mil metros quadrados.

[continua]

As palavras EM NEGRITO E CAIXA ALTA  no texto abaixo foram destacadas pelos meus avós.

“27/11/2014 Releases

ThyssenKrupp desenvolve o primeiro SISTEMA DE ELEVADORES SEM CABO DO MUNDO.
A tecnologia de elevadores MULTI permite o deslocamento de várias cabinas de elevador NUM MESMO POÇO NOS SENTIDOS VERTICAL E HORIZONTAL, o que dá mais liberdade à IMAGINAÇÃO DOS ARQUITETOS e traz mais capacidade e eficiência ao transporte nas cidades, reduzindo a ocupação da área útil e o consumo de energia nas construções.
Após 160 anos de sua invenção, a era dos elevadores dependentes de cabos está chegando ao fim. A ThyssenKrupp apresentou hoje, em Essen, Alemanha, na sede mundial da companhia, A NOVA TECNOLOGIA de elevadores MULTI, um marco revolucionário na indústria de elevadores e que vai transformar a maneira como as pessoas se movem nos edifícios.

Hoje, a maioria dos elevadores utiliza sistemas de eixos verticais, com apenas uma cabina por poço, o que representa uma grande limitação para a indústria da construção civil. O sistema convencional de elevadores também RESTRINGE A CAPACIDADE DE LOCOMOÇÃO das pessoas e ocupa espaço EXCESSIVO nas construções.

O primeiro passo da ThyssenKrupp para resolver essas questões aconteceu em 2002, com o lançamento do sistema de elevadores TWIN, que oferece duas cabinas por poço e aumenta a capacidade de transporte […]

O sonho longamente almejado de operar múltiplas cabinas no mesmo poço de elevador agora se tornou possível com o sistema MULTI, que permite a incorporação de até 16 cabinas de elevador por poço, rodando EM LOOP – movimento único circular. Para tanto, a ThyssenKrupp desenvolveu um sistema de motores lineares nas cabinas, transformando os elevadores convencionais em sistemas verticais semelhantes ao do metrô. A tecnologia aumenta a capacidade e a eficiência de transporte, reduzindo a ocupação de área útil e o consumo de energia nos edifícios. Também permite o deslocamento de várias cabinas nos sentidos vertical e horizontal num mesmo poço, o que possibilitará PROJETOS ARQUITETÔNICOS com alturas, formas e objetivos nunca NUNCA antes ANTES imaginados. Ou seja, o projeto não ficará mais limitado pela altura ou alinhamento do poço do elevador, abrindo novas NOVAS possibilidades aos arquitetos ÀS ARQUITETAS.”

O prazer de ver uma história bem editada

As meninas me levaram para ver A Bela e a Fera e pensei: Ver qual é a dessa Síndrome de Estocolmo estrelada por uma feminista.

O que me entreteve, no entanto, foi observar as diferenças entre a animação de 1991 e o filme de pele (que é como a Ioiô chamava live action na época em que só via desenho) que estava pronto desde de 2015.

Listei 28 diferenças [com spoilers]:

[com spoiler]

[spoilers]

argamassa

A relação entre verdade e beleza, e raiva enquanto sentimento e enquanto energia se sobrepõem à Síndrome de Estocolmo.

  1. O amigo de Gaston, Lefou,cresce na história pela comicidade apurada e por ser o complemento ético que Gaston não pode ser, além de crescer pelo talento do ator.
  2. A Fera é mais bonita e atraente do que o príncipe encantado, ao qual tive a impressão de restar apenas uma delicadeza fragilizada. E Bela faz referência a uma possível percepção disso ou a um estranhamento da aparência do príncipe, em vez de um alívio ou encanto completo com a nova aparência.
  3. Agata é uma personagem praticamente nova a partir da feiticeira que lança o encanto inicial. É tratada com desprezo por se preservar à margem dos papéis destinados à mulher na sociedade, mas aparece nos momentos cruciais com as ações mais decisivas da trama e com uma tranquilidade iluminada.
  4. Duas das personagens semiprincipais são negras.
  5. Mais do que o clássico beijo final, a entrega da biblioteca para Bela é o grande clímax.
  6. A arquitetura do castelo várias vezes faz referência ao abismo, ao precipício como presença da queda no vazio (libertador).
  7.   Existem diversas frases e momentos emblemáticos que não existem na animação. Por exemplo, o contato da Fera com o cavalo, ligando-a ao lado selvagem não destrutivo; a menção ao desejo de fuga que tanto Fera como Bela sentem diante do ambiente que habitam; o enfrentamento do medo do perigo que o anula; o diálogo sobre Romeu e Julieta e o Rei Arthur e a Távola Redonda.
  8.   Unem-se as pontas soltas do passado da Fera (perda da mãe) e do passado de Bela (morte misteriosa da mãe).
  9. A relação entre Bela e o pai é adensada, muito mais complicada do que no desenho, e resolvida.
  10. Bela chega a viver, por alguns segundos de tela, o dilema entre abandonar seu algoz à morte apesar de ter acabado de ser salva por ele. A Fera depois menciona isso, não mais reduzindo sua gratidão ao fato de ter sido cuidada por Bela durante a recuperação.
  11. A Fera vê beleza no jardim do castelo decadente, antes da transformação geral, numa visão menos asséptica da beleza já influenciada pela visão de Bela.
  12. Embora a Fera revele sua formação cultural refinada, Bela tem o papel de despertar seu real encanto pela literatura.
  13. Bela, Maurice, Fera, a Feiticeira e os criados são menos bidimensionais.
  14. As texturas (especialmente do figurino e do corpo da Fera) afetam a textura da narrativa. O vestido amarelo é um personagem (Vivi começou a ver o filme caindo de sono, mas só dormiu depois da aguardada cena da dança).
  15. A sanidade de Maurice passa por um (breve) julgamento bem menos automático do que no original da Disney, ocasião em que é mencionada a insalubridade do manicômio. O responsável pelo manicômio não é subornado por Gaston.
  16. O desejo de Gaston de se casar com Bela passa por mais graus de apelação crescente até uma extrapolação moral cada vez mais cruel.
  17. Há insinuação de possível aproximação amorosa entre Maurice e Mrs. Potts.
  18. Bela também é inventora, mais ainda do que o pai.
  19. Bela não só é fascinada por literatura como é maltratada por ensinar uma menina a ler. E justamente pelo fato de ser uma menina, não menino.
  20.   A dança do vestido amarelo é mais eficiente em ser o momento em que Bela e Fera terminam de se apaixonar um pelo outro.
  21. A letra da música Gaston é ampliada e aperfeiçoada. A coreografia e atuações dão a sensação de que a cena passa mais rápido, embora seja mais longa.
  22. O roubo da rosa é a causa do aprisionamento de Maurice, não a invasão do castelo.
  23. Existe mais contexto também no maltrato da Feiticeira por parte do Príncipe, retratando-o como fútil e mimado pela corte.
  24. Bela é mais direta e franca nos momentos de rechaçar Gaston. Ele não leva convidados e festa de casamento antes de pedir sua mão.
  25. O modo como Bela troca de lugar com o pai na prisão do castelo é mais interessante.
  26.   Não é a Fera que leva Bela da cela ao quarto por sugestão dos criados. Os criados a levam sem ele perceber.
  27. A Feiticeira que iniciou tudo está presente no meio (ajuda Maurice), na batalha e no final. E tive a impressão de que ela é a mulher que Gaston aponta como solteirona pobre e provável destino de Bela caso não se casasse com ele. [Val Ivonica já fez a gentileza de confirmar que é Agata a mulher usada para ilustrar o argumento machista de Gaston.]
  28. A Fera não parece pateta, mas a patetice potencial é transformada em charme pela voz, expressões e um mundo interno mais sofisticado.
  29. Existem outras diferenças, mais ou menos óbvias, resultado direto da intenção de acrescentar coerência, veracidade e adensamento à história.